segunda-feira, 27 de setembro de 2010

As declarações de um Galo com autoridade.

Zico. Sensacional.
             Zico é, acima de tudo, um dos mais competentes profissionais do futebol brasileiro. Quase "cidadão do mundo", ensinou, com o time sensacional do Flamengo da década de 80, ao Brasil e ao mundo, em 1981 (ao Liverpool também, claro) o que era o verdadeiro futebol e deu uma amostra do que viria na Copa do Mundo do ano seguinte. A diferença, claro, que o time do Galinho trouxe o título mundial. Sozinho, ele ensinou aos japoneses como se deveria jogar futebol de verdade, no começo da década de 90. Sìmbolo máximo de honestidade, simpatia e carisma, Zico já mostrou mais do que poderia se esperar tanto do menino franzino de Quintino, em campo, quanto do craque camisa 10 quando topou ser treinador. Bom trabalho com o Japão em 2006, Olympiakos (onde foi demitido "à brasileira) e Fenerbahce na UCL.
           
         Mas o que gostaria de comentar é a entrevista concedida por ele à revista "Placar", que estará nas bancas em Outubro. A ESPN, em seu site, traz as declarações que são mais simbólicas dessa entrevista, como:

"Hoje, quando os garotos se sobressaem, os pais acham que eles serão a salvação da família e jogam tudo em cima deles. A gente dizia na nossa época que 'filho bom é filho órfão', aquele que o pai não leva ao treino, não enche o saco, não dá trabalho"


            Isso já diz muito sobre o que se passa nos "criadouros de jogadores" que os dirigentes de clubes teimam em chamar de "categorias de Base". Lembrando que essa foi uma referência claríssima ao episódio Neymar F.C. X Dorival Jr. O galinho ainda acrescenta que, na sua época, ia sozinho ao treino, e à escola pegando ônibus e trem, andando um bom pedaço, com sua chuteira embaixo do braço. Essa declaração é um exato resumo do que acontece com o fenômeno social chamado futebol. 

             A crítica, mais clara impossível, é quando o menino pobre, que tem seu talento reconhecido muito cedo pelos "olheiros", recebe sondagens e propostas, ainda muito, muito jovem, de clubes grandes e agentes. As tais propostas milionárias são feitas e apresentadas ao menino e à família. Ora, como a maioria da população brasileira vive a margem da pobreza, qualquer possibilidade de se ganhar muito dinheiro é agarrada com unhas e dentes. Assim, o "projeto de jogador" passa a carregar nas costas toda a expectativa de ascensão social da família. Os pais, nesse momento, passam a ser dependentes do filho, invertendo papéis e criando um quadro onde todas as vontades do menino são obedecidas e tornadas realidades. Não há repreensão, educação ou ensinamentos. Não há limites. E, como resultado, temos jovens, que chegam a fase adolescente ou quase adulta, sem ter tido uma infância sadia e construtiva. Sem nunca terem ouvido "não" dos pais.

          Os poucos jovens que chegam ao patamar de jogador, profissional ou não, muito valorizado pelo mercado,  os pais começam a tratar o filho de maneira super-protetora, o impedindo de tomar decisões importantes e de encarar problemas. Não é passado ao jovem a noção de respeito a hierarquia. Assim, ocorrem episódios ridículos como o "faniquito" de Neymar e, bem antes, a greve de Robinho para ser negociado pelo mesmo Santos.
       
Imagem e semelhança. Produtos da realidade atual.
           Uma outra declaração de Zico, na mesma entrevista, foi a respeito de Adriano e seu custo-benefício para o Flamengo, em sua passagem durante o ano passado. O dirigente rubro-negro voltou a criticar o jogador, e disse:
"Qual a vantagem que o Adriano trouxe ao Flamengo? O título brasileiro? Isso não paga. Brasileiros, só o Flamengo já tinha cinco"

Vantagens pra quem, Adriano ?
            Essa é mais direta, e, para mim, indiscutível. Na minha opinião, mesmo com o título brasileiro, a estadia de Adriano no Flamengo só demonstrou a desorganização do Clube, a importância em demasia que é dada aos jogadores no Brasil. Regalias, faltas injustificadas, sumiços, atuações fracas durante esse ano, confusões, suspeitas de participação em negociações escusas. Páginas policiais foram escritas tendo o escudo do Flamengo como pano de fundo. E, lógico, sempre teve um dirigente para "passar a mão na cabeça" do coitado do Adriano. Se a Libertadores era o verdadeiro sonho e objetivo do rubro-negro carioca, apostar em Adriano se mostrou um erro. Sua passagem, para mim, só serviu para arranhar mais a imagem do Clube.   

Um comentário:

Larissa disse...

Concordo com TODO seu texto, Mogais! Galindo dando show de coerencia, como sempre...